Passei na pastelaria e chamei um café preto para acompanhar
O
cara atrás do balcão embrulhou o pastel para levar, como se diz por aqui. Saí em
um passo muito mais do que compassado. Sentia que ouvia meu coração bater
sempre que tocava o pé na calçada. Minha mochila estava pesada, recheada de
arte. Enquanto caminhava, o sol quente e o vento morno trombavam com minha face.
Pensei, vai ser um dia legal. O céu estava azul de anil e minha intuição era
positiva.
Sentei
no banco e deixei a mochila de lado. Abri o embrulho. A primeira mordida foi
bacana. Gostei, pensei. Bebi um gole de café e me senti lisonjeado. Afinal de
contas, em meio a tanta fome, o divino me abençoava. Obrigado, pensei. Logo que
acabei de saciar o estômago saquei a tralha para cima do banco. Desenrolei a
cordinha. Catei os prendedores. Escolhi as artes e em poucos minutos o varal
estava estendido.
Sentei
no banco e empunhei um palheiro (cigarro feito manualmente com fumo picado,
esse que vendem em mercadinhos de bairro). A primeira baforada misturou com o
gosto do café preto. Fiquei contente com a combinação de sabores e me entreguei
ao prazer mundano de estragar meu corpo em troca de algum tempo de pura
satisfação. É aquela coisa, o tempo passa e tenho consciência de que não
ficarei para semente, como dizia alguém que eu gostava e já partiu para outra
dimensão.
Estava
olhando para a rua em movimento quando alguém interagiu e interviu em meu
instante de contemplação. Quer um café?!, falou. Obrigado, acabei de beber um,
respondi. E o que isso quer dizer? Aceita?, replicou. Estendi a mão e aceitei.
Passei do outro lado da rua e te vi aqui, como te vejo sempre aqui na praça
peguei um café e vim trocar uma ideia contigo, ela disse. Beleza, pode ficar à
vontade para curtir as artes, não paga nada para ver, nem para trocar ideias, falei
de boa. Cara, você é daqui?, perguntou. Aham, moro logo aqui perto, disse,
apontando o caminho.
O papo fluiu. Deu para sacar que a mina era cabeça-boa, suas ideias estavam em sintonia com as minhas. Alguns minutos depois ela parou na frente de uma arte e disse, vou ficar com essa. A mina fez o Pix e falou, continua fazendo o teu trampo, todo mundo que mora aqui na volta está falando bem do teu trabalho. Obrigado, respondi. Então ela completou, achei que você merecia saber disso, até mais, e que Deus te abençoe. Agradeça a ele por mim, respondi. Ela fez um sinal de positivo e seguiu o seu caminho.