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Mostrando postagens com o rótulo Afobório
Passei na pastelaria e chamei um café preto para acompanhar
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O cara atrás do balcão embrulhou o pastel para levar, como se diz por aqui. Saí em um passo muito mais do que compassado. Sentia que ouvia meu coração bater sempre que tocava o pé na calçada. Minha mochila estava pesada, recheada de arte. Enquanto caminhava, o sol quente e o vento morno trombavam com minha face. Pensei, vai ser um dia legal. O céu estava azul de anil e minha intuição era positiva. Sentei no banco e deixei a mochila de lado. Abri o embrulho. A primeira mordida foi bacana. Gostei, pensei. Bebi um gole de café e me senti lisonjeado. Afinal de contas, em meio a tanta fome, o divino me abençoava. Obrigado, pensei. Logo que acabei de saciar o estômago saquei a tralha para cima do banco. Desenrolei a cordinha. Catei os prendedores. Escolhi as artes e em poucos minutos o varal estava estendido. Sentei no banco e empunhei um palheiro (cigarro feito manualmente com fumo picado, esse que vendem em mercadinhos de bairro). A primeira baforada misturou com o gosto do café preto. Fiq...
A arte de florescer
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Desde o final de semana passado que não para de chover por aqui. Acabei ficando em casa todos estes dias e me dediquei ao trabalho. Recuperei alguns livros e terminei uma pirogravura para entregar. Quero voltar para as ruas tão logo a chuva passe. Mas, enquanto o tempo passa, também aproveito meu tempo para beber ideias alheias. Hoje, liguei o computador para navegar um pouco. E vagando de um endereço ao outro percebi que o artista de rua tem muito a dizer. Passei em um blog de um cara que admiro e degustei um tanto de seus textos. Enquanto observava suas colocações notava que o mundo é diferente em paisagem, mas o fio da meada é o mesmo. Pelas ruas e praças encontrei o que me faltava. Queria vivência e experiência. A arte é o que uso para viver e trocar ideias com as pessoas. Falando com elas, vejo como valores e demandas e comportamentos são diferentes quando comparamos indivíduos lotados em grupos sociais distintos. Quando leio e fico pensando sobre os conteúdos que acesso, tenho a ...
Tenho andado como quem tenta imitar um monge
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Persigo um passo de cada vez. Mantenho meu pensamento desapegado das ilusões que um dia ouvi. Faço dos meus dias uma promessa de resistência. Não invento força para negar o que percebo e sigo como quem deixa que tudo vá e se manifeste. Aprendi que não existe quem não tenha provado um pouco de abandono, de tristeza e dor, ao tempo em que sobrevive. Estou seguindo uma convicção que me diz o seguinte: desapegue e não pragueje, apenas caminhe. É uma atitude libertadora e poderosa, aceitar o que tenho de acolher e fazer o que preciso bancar. Sinto como se lambesse minhas feridas sem chorar. Tenho a impressão de que muita coisa que apanhou-me desprevenido tinha alicerce em uma visão fiel e extremamente unilateral. Um erro meu, pois, no fundo, já sabia que havia um padrão. Sim, eu me enganei. E me iludi porque escolhi. Contudo, observar os monges, permitiu que eu pudesse renascer, ainda bem.
Um dia destes ainda fiquei olhando para o céu durante horas seguidas
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Tenho passado um tanto de tempo lendo. Refletindo. Anotando. Desenhando. Pintando. Pirogravando. Expondo na rua. Conversando com as pessoas. Fermentando ideias. Levando a vida. Creio que ando na trilha de meu caminho. Um dia destes ainda fiquei olhando para o céu durante horas seguidas, tentando saber o que havia além do azul. Queria descobrir como é aonde não se vê. Enfim, sempre desejo algo novo, que não se pode comprar ou vender. Sinto que permaneço vivo. E ao tempo em que tento contribuir para com meu redor, descubro que me fortaleço e me mantenho evoluindo. Sem cobranças e na ausência de qualquer pressa encontro paz. Faço da arte meu refúgio, como quem entende que nosso dia é algo precioso e não pode ser desperdiçado com o que não promove levezas. A consciência é algo que me parece em afinidade com silêncios longos e palavras e ações pontuais. Ando em busca de saberes que ainda não tenho. Trocando algo aqui e ali pelos bancos das praças. Vejo a rua como casa e muitos como irmãos. ...
Estou em paz
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Ando em dois mundos e agora estou distante da mata mais verde que já vi O vento castiga minha face e afaga um varal colorido que tremula Sinto que minha alma revive O cheiro do monóxido de carbono carimba meu pulmão E um pássaro canta no alto de uma árvore Contudo, sem asas, porém, também divino, um mano desconhecido corre o olho pelo trampo Sei que a calçada me abriga desde muito jovem Seja palavra Seja tinta Seja madeira Seja ferro, fogo ou brasa O que mais importa é ser Ser como se nasceu Honesto consigo e o mundo em nossa volta E ao tempo em que me sirvo da situação e anoto, estou em paz comigo mesmo Estou livre Estou participando da mudança Estou em casa Estou na rua Estou esparramando um tanto do que brota em meu coração E olhando o varal e coringando o pano, sei que ando em dois mundos Com os mesmos pés O mesmo espírito A mesma alma E a mesma satisfação de ser
A arte me parece um jeito de resistir ao lado do conhecimento
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Ler como quem procura janelas abertas para arejar o ambiente mental e físico. Creio que a filosofia da busca pelo equilíbrio enobrece as anotações. Vejo as plantas crescendo. A madeira sendo coberta pelo traço do pirógrafo e a tinta. A lenha queima na lareira ao tempo em que a rocha torna-se um baluarte encantador e próspero. É como se o segredo pudesse preservar o futuro e o sossego.
Acordo todo dia no mesmo mundo cão
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Saio para levar o lixo até o contêiner. O tempo está carregado e vem mais chuva e mais desgraça e isso está me atormentando. Tem um vento frio que se parece com o que sopra no inverno. Alguns pássaros cantam ao tempo em que motoristas afoitos buzinam e gesticulam uns para os outros sempre que dois ou três carros se encontram em uma esquina. Logo vejo dois cães que me cercam e começam a latir. São os mesmos de todos os dias. Agora, manter os próprios cachorros na rua como se estivessem em área privada é o novo normal. Aliás, não aguento mais essa teoria de o novo normal para tudo, como se o mundo houvesse virado de cabeça para baixo. Em pouco tempo escuto rosnadas, olho firme para um deles e digo em alto e bom som: se tu te bobear vou ter de te chamar na pedra. O cão pressente que existe algo de diabólico comigo e hesita. Largo o lixo para dentro do contêiner e em dois segundos tenho quatro pedras em minhas mãos. O canino, incrédulo, ainda me olha e eu olho para ele. Lá pelas tantas v...
As plantas estão lindas
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Fazer bonsai “demora”. A gente aprende a compreender o tempo de outra maneira. A natureza tem o seu andamento. E nada tem a ver com a pressa. Ouço muita coisa sobre o assunto. Porém, me manifesto pouco a respeito, pois, aprendi que o cultivo é o melhor caminho para formar uma árvore magnífica. Acho que a vida é feita de escolhas. E, ao tempo em que muitos se denominam como sendo bonsaístas, eu prefiro ser apenas um alquimista.
Das brevidades da vida
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Atenho-me ao amor pela arte. Faço dos instantes meus momentos. Lido com cada segundo com o mesmo destemor. Acho que tenho me fortalecido em boas doses durante a vida. Blindar a mente para salvar o corpo e o espírito da melhor maneira possível tem sido uma de minhas ocupações a partir do momento em que entendi que para tudo existe um tempo. Em poucos dias terei mais peças e voltarei para as praças. Creio que o sol invernal poderá aquecer meu corpo durante tal empreitada. A vida é esta: produzir e vender para que aos poucos siga meu caminho com tudo que a vida pode me oferecer conforme escolhi.
Conversando
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“A vida é uma dança de pensamentos em que não se pode perder saliva”. Esta foi uma colocação que ouvi de um amigo com quem conversava sobre a arte de soltar o copo. Não sei se faço a melhor abordagem para o assunto, mas na falta de outra melhor, tentarei usar esta mesma para embasar meu raciocínio. O papo é sobre convencimento, ou melhor, sobre o erro de querer convencer alguém sobre um determinado ponto de vista. E justifico minha análise porque tenho ouvido muita gente inteligente comentando que é impossível debater uma ideia com alguém que não está disposto a entendê-la. Sem muito mais a dizer sobre, creio que devemos dialogar com nosso interior antes de tentar conversar com o exterior. Até porquê a revolução é individual e de responsabilidade pessoal e intransferível. Por fim, acho que não é emocionalmente inteligente desgastar-se com situações tóxicas. O melhor é deixar que o teatro da vida se cumpra conforme as escolhas de cada indivíduo.
O ser e a madeira
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Crescer, no sentido de evoluir pessoalmente, é uma tarefa árdua. Porém, é uma decisão sábia. Portanto, creio que seja possível, durante esta crônica, utilizar o conceito de que nos parecemos com um pedaço de madeira bruta, o qual depois do entalhe torna-se a mais pura arte. Claro que afirmo tal condição tendo em mente que a arte nasce pelas mãos humanas. Enfim, estabelecido o conceito, o paradigma e o assunto, penso que posso avançar com minhas considerações tendo em vista o contexto estabelecido como sendo o norte deste texto. Assim sendo, escrevo como quem costuma passar boas horas de seu dia conversando com os veios da madeira que entalho e pirografo. E ao tempo em que busco suavizar as formas e as linhas e os contornos dou-me conta de que também aperfeiçoo meu ser. Sinto como se o formão aparasse minhas rugosidades ao instante em que o pirógrafo queima todo e qualquer resquício que me impeça de evoluir em direção ao aperfeiçoamento. Entre um café e outro: observo o resultado e me s...
Existe um desespero evidente
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Chamar atenção é a cultura do momento. Muita gente se perde enquanto tenta angariar popularidade. Antigamente, costumava escrever histórias em canais de comunicação em que o texto e a reflexão não eram a prioridade. Levei um certo tempo para alcançar que estava deslocado e aceitar que frequentava o espaço errado. E durante muitos dias de minha vida fiquei sem entender algumas reações em minha volta. Embora formado em comunicação social sempre achei que os textos e os contextos eram autoexplicativos. Porém, me enganei. E quando me dei conta disso comecei a pensar em todos os dados que tinha enquanto editor de livros. Lá pelas tantas tive de dar o braço a torcer e entendi que não temos 5% de pessoas capazes de identificar o que é ficção e o que é realidade. Claro que um país que lê tão pouco não está preparado para debater e entender muita coisa. Contudo, a partir do momento em que parti para publicações manuais e passei a veicular minhas obras no meu tapetão de andarilho tudo mudou. Fiq...
Caiu uma chuva pesada esta noite
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Sinto cheiro de terra molhada misturado com fuligem. Está quente e úmido. Parece que a casa é uma panela de pressão cozinhando feijão. Abro todas as janelas na esperança de que o ar refrigere tudo, até minha alma. Tomo um gole de água bem gelada e sinto um pouco de vento frio correr pela casa e me sinto agraciado por um milagre. As nuvens estão carregadas e prometem mais chuva. Hoje não tem mangueio, penso. Olho para as madeiras gradeadas na oficina e sei que não tenho como pirogravar mais nada porque estou com a sala de pintura lotada de peças. Apanho uma xícara com café e ligo o computador. Me sirvo de um careta e abro a porta da oficina para que o ar circule. Ao tempo em que o sabor do café se mistura ao tabaco acompanho um homem magro e alto que sobe a lomba ao lado de seu cachorro. Os dois andam com paciência. Nada pode separá-los, nem os carros apressados que voam como se fossem aviões. Penso um pouco sobre a cena que vejo e tenho a mais absoluta certeza de que os dois não estão ...
A paz
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Anoto muitas linhas em meu caderno ao tempo em que vago pelas praças da cidade. Encontrei minha paz de novo. A mesma que tinha com 18 anos. Consegui um tanto de solitude e também um pouco de verdadeira companhia. Ao trocar ideias e expor meu trampo resgatei o único modo de vida que conseguiu completar meu ser. Acho que é isso que mais conta em nossa existência: trilhar um caminho que possa verdadeiramente sossegar o nosso coração.
Olhei pela janela e senti o mormaço que invadia o ambiente
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O dia era mais quente do que o normal. Fevereiro dava mostras de que o sol podia fritar qualquer coisa. Até miolos. Então o meu senso de felino se manifestou e tive a impressão de que deveria fazer o mangueio com inteligência. Catei uma dúzia de livros de bolso e soquei na mochila. Conferi as tralhas e vi que estava tudo preparado. Saí fumegando ao tempo em que sentia o calor que subia do asfalto. Acho que essa porra vai derreter, pensei, imaginando uma gelatina pegando em meus pés. Andei até a Primeiro de Maio, sentei no banco, descansei alguns segundos até que o suor secasse em minha pele e grudasse a camiseta em meu corpo. Bebi um gole de água e rapidinho estava com o varal esticado. Contei as peças e tinha um bom volume, mais de 40. Saquei um livro como se fosse um 38 e comecei a ler. Não demorou muito e alguém parou, você vem sempre aqui, né?!, disse, em um misto de pergunta e afirmação. Aham, venho sim, respondi. Gosto do seu trampo, falou. Vi que era um moleque da baixada da Gló...
É uma segunda-feira com cara de domingo
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Estou de folga porque trabalhei durante o final de semana. Acordei no mesmo horário de sempre e fiz um chimarrão dos bem cevados e me plantei aqui diante de meu computador e fiquei olhando algumas plantas que tenho em vasos e senti a vontade de escrever um pouco sobre elas. Estas plantas em específico estão completando 10 anos. Estão bonitas. Há uns 4 anos comecei a reduzir o tamanho delas para que se acomodassem melhor aqui no espaço disponível. Aos poucos estão se tornando bonsai. Alguns extremamente bonitos. E uma coisa que reparei foi que o cultivo foi moldando cada uma delas sem pressa e me sinto recompensado. Acho que o segredo da vida é dar tempo ao tempo e não estipular metas com base em realidades muito longe da que temos. Um traço que não pude deixar de notar ao tempo em que olhava para elas é que estão muito parecidas com aquelas árvores imensas e antigas que a gente encontra ainda em pequenos bolsões verdes e me encantei com tamanha formosura. Pretendo manter o cuidado com ...