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Aquarela em dobro

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Esperei até secar. Gostei da primeira camada. Vou colocar mais uma, pensei. Botei o estojo em que guardo meus lápis sobre a mesa. Catei um potinho e adicionei um pouco de água. Mais ou menos a metade. Escolhi a paleta de cores. Respirei. Olhei. Comecei devagar. Fui combinando as cores e finalizei com água e pincel. Recolhi a bagunça. Tomei banho. Bebi um café e fumei um palheiro. Catei as artes e chapei o muro aqui de casa com elas. Costumo dizer que o Muro do Mammalia é o mais colorido da cidade. Só que deixei o espaço da esquina para a peça que tinha terminado. Era um dia em que o sol aparecia e sumia. Estava bom. Calor e nublado em boa parte do tempo. Vou esticar o dia, pensei. A temperatura passava dos 30º e pelo que via sabia que a chuva pintava no horizonte e dividia a imagem em dois tons. Vou me pregar aqui no muro mesmo, pensei. Essa é uma manha que eu tiro para dias assim. Dava para sentir que a chuva seria grande por causa da força com que o vento soprava. Dei mais um t...

Aquarela

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Tudo tem seu tempo. E criar demora. A peça precisa maturar na cabeça e depois no coração. A cor leva um período para secar. E não importa a urgência do mundo. Nem tudo se pode mudar ou controlar. Procuro pensar no que está ao meu alcance e não me invocar com o que não está. Vou juntando os traços, as cores, os sentimentos, as sensações e as informações enquanto componho. Fumo um palheiro, bebo um café e dou tempo ao tempo. Tento estar presente de corpo e alma durante o processo inteiro. A arte precisa de um tanto de entrega. Gosto disso. Acho que lapida minha alma. E ao tempo em que converso com os instantes nem sempre consigo correr como muitos poderiam projetar. A velocidade da luz é o instante do momento. Porém, não tenho uma nave com tamanho desempenho. E aos poucos fui aprendendo a conviver comigo mesmo. Com meu jeito, meu modo, meu tempo. Por isso passei a semana na base, ao pé do muro aqui de casa (tinha de compor a peça). Abro a porta da garagem e esparramo os trampos pel...

Chuva na vidraça

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  Acordei cedo. Antes das 6h. coloquei a água esquentar para fazer um café. Abri a janela basculante e vi a chuva. Mais um dia, pensei. É um ano de muita, mas muita chuva mesmo. Enquanto bebia meu café e fumava meu cigarro de palha, fiquei pensando no que fazer. Catei um pedaço de madeira e coloquei o pirógrafo para esquentar. Os pingos de chuva batiam na vidraça e salpicavam o chão da cozinha. Tive de fechar. Sentei na mesa. Abri a pasta de desenhos para escolher um deles. Achei: é este que vou fazer, pensei. Depositei meus olhos sobre a peça e esqueci da vida. Devagar, fui compondo. Aos poucos. Com paciência. E quando me dei conta estava pronto. Andei até o fogão e coloquei mais uma água para esquentar. Só que desta vez, fiz um chimarrão. Em dias frios e chuvosos aquece o peito, a garganta e o coração. Acendi mais um cigarro de palha e fiquei pensando, agora, tenho de ouvir o barulho da chuva e esperar pela volta do sol.

O ser e a madeira

Crescer, no sentido de evoluir pessoalmente, é uma tarefa árdua. Porém, é uma decisão sábia. Portanto, creio que seja possível, durante esta crônica, utilizar o conceito de que nos parecemos com um pedaço de madeira bruta, o qual depois do entalhe torna-se a mais pura arte. Claro que afirmo tal condição tendo em mente que a arte nasce pelas mãos humanas. Enfim, estabelecido o conceito, o paradigma e o assunto, penso que posso avançar com minhas considerações tendo em vista o contexto estabelecido como sendo o norte deste texto. Assim sendo, escrevo como quem costuma passar boas horas de seu dia conversando com os veios da madeira que entalho e pirografo. E ao tempo em que busco suavizar as formas e as linhas e os contornos dou-me conta de que também aperfeiçoo meu ser. Sinto como se o formão aparasse minhas rugosidades ao instante em que o pirógrafo queima todo e qualquer resquício que me impeça de evoluir em direção ao aperfeiçoamento. Entre um café e outro: observo o resultado e me s...

Caiu uma chuva pesada esta noite

Sinto cheiro de terra molhada misturado com fuligem. Está quente e úmido. Parece que a casa é uma panela de pressão cozinhando feijão. Abro todas as janelas na esperança de que o ar refrigere tudo, até minha alma. Tomo um gole de água bem gelada e sinto um pouco de vento frio correr pela casa e me sinto agraciado por um milagre. As nuvens estão carregadas e prometem mais chuva. Hoje não tem mangueio, penso. Olho para as madeiras gradeadas na oficina e sei que não tenho como pirogravar mais nada porque estou com a sala de pintura lotada de peças. Apanho uma xícara com café e ligo o computador. Me sirvo de um careta e abro a porta da oficina para que o ar circule. Ao tempo em que o sabor do café se mistura ao tabaco acompanho um homem magro e alto que sobe a lomba ao lado de seu cachorro. Os dois andam com paciência. Nada pode separá-los, nem os carros apressados que voam como se fossem aviões. Penso um pouco sobre a cena que vejo e tenho a mais absoluta certeza de que os dois não estão ...