Aquarela
Tudo
tem seu tempo. E criar demora. A peça precisa maturar na cabeça e depois no
coração. A cor leva um período para secar. E não importa a urgência do mundo. Nem
tudo se pode mudar ou controlar. Procuro pensar no que está ao meu alcance e
não me invocar com o que não está.
Vou
juntando os traços, as cores, os sentimentos, as sensações e as informações
enquanto componho. Fumo um palheiro, bebo um café e dou tempo ao tempo. Tento estar
presente de corpo e alma durante o processo inteiro. A arte precisa de um tanto
de entrega. Gosto disso. Acho que lapida minha alma.
E ao
tempo em que converso com os instantes nem sempre consigo correr como muitos poderiam
projetar. A velocidade da luz é o instante do momento. Porém, não tenho uma
nave com tamanho desempenho. E aos poucos fui aprendendo a conviver comigo
mesmo. Com meu jeito, meu modo, meu tempo.
Por
isso passei a semana na base, ao pé do muro aqui de casa (tinha de compor a
peça). Abro a porta da garagem e esparramo os trampos pela calçada. Fico escutando
os pássaros, as buzinas, as vozes. É doido como já me acostumei com o alvoroço
que se cria na esquina.
Imagino
a surpresa que deve apanhar muita gente que circula por aqui. O povo curte a
loucura do muro. Muitos param para olhar e dizem, “Mano, você é louco, tá muito
foda”. Então eu agradeço. Uma coisa tenho aprendido durante a vida: tudo tem
seu tempo. E muita coisa depende do quanto de tempo que a gente tem. E para ter
tempo, só tem um jeito: levar uma vida minimalista e feliz.