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Mostrando postagens com o rótulo Conto

Acordo todo dia no mesmo mundo cão

Saio para levar o lixo até o contêiner. O tempo está carregado e vem mais chuva e mais desgraça e isso está me atormentando. Tem um vento frio que se parece com o que sopra no inverno. Alguns pássaros cantam ao tempo em que motoristas afoitos buzinam e gesticulam uns para os outros sempre que dois ou três carros se encontram em uma esquina. Logo vejo dois cães que me cercam e começam a latir. São os mesmos de todos os dias. Agora, manter os próprios cachorros na rua como se estivessem em área privada é o novo normal. Aliás, não aguento mais essa teoria de o novo normal para tudo, como se o mundo houvesse virado de cabeça para baixo. Em pouco tempo escuto rosnadas, olho firme para um deles e digo em alto e bom som: se tu te bobear vou ter de te chamar na pedra. O cão pressente que existe algo de diabólico comigo e hesita. Largo o lixo para dentro do contêiner e em dois segundos tenho quatro pedras em minhas mãos. O canino, incrédulo, ainda me olha e eu olho para ele. Lá pelas tantas v...

Olhei pela janela e senti o mormaço que invadia o ambiente

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O dia era mais quente do que o normal. Fevereiro dava mostras de que o sol podia fritar qualquer coisa. Até miolos. Então o meu senso de felino se manifestou e tive a impressão de que deveria fazer o mangueio com inteligência. Catei uma dúzia de livros de bolso e soquei na mochila. Conferi as tralhas e vi que estava tudo preparado. Saí fumegando ao tempo em que sentia o calor que subia do asfalto. Acho que essa porra vai derreter, pensei, imaginando uma gelatina pegando em meus pés. Andei até a Primeiro de Maio, sentei no banco, descansei alguns segundos até que o suor secasse em minha pele e grudasse a camiseta em meu corpo. Bebi um gole de água e rapidinho estava com o varal esticado. Contei as peças e tinha um bom volume, mais de 40. Saquei um livro como se fosse um 38 e comecei a ler. Não demorou muito e alguém parou, você vem sempre aqui, né?!, disse, em um misto de pergunta e afirmação. Aham, venho sim, respondi. Gosto do seu trampo, falou. Vi que era um moleque da baixada da Gló...

Um menino desaparecido

O menino acordou e viu o carro capotado. Estava em chamas. Olhava para os lados e não via ninguém. Nem seu pai e nem sua mãe que estavam com ele. O fogo era tão alto que Miguel não podia se aproximar do local do acidente. Olhava na direção da rodovia e não via nem mesmo um automóvel na pista. O dia era frio. E, logo, começou a chover. Mas, ele não se afastou do veículo até ver o final do fogo. Quando se aproximou, constatou que era o único sobrevivente. Miguel, não sabia o que poderia ou deveria fazer. Então, embrenhou-se na mata. Ficou um dia. Dois. Três. As semanas passaram. Os meses passaram. Os anos passaram. E, Miguel, aprendeu a viver em meio à floresta. Sentia-se parte da natureza e embora sentisse muita falta de seus pais, não nutria a menor vontade de integrar-se novamente à vida civilizada. Com paciência e dedicação, construiu um abrigo quente, seco e forte. Aprendeu a viver do que a mãe terra lhe dava e sentia-se bem adaptado ao mundo natural. Miguel sabia que havia perdido ...

Embaixo do sol

O sol estava quente e o vento soprava com força. Tragava um careta e pensava em escrever. Sabia que tinha de fazer a lida antes de poder sentar e anotar alguma coisa. Em minha volta, transeuntes e carros disputavam a lateral da rua. Enquanto isso tentava recolher a matéria orgânica com o máximo de cuidado. Queria encher a sacola de rafia até a boca e me livrar de espinhos, aranhas, escorpiões e cobras. Lá pelas tantas, vi que algo se moveu em meio aos galhos. Dei um passo para trás. Traguei fundo e não tirei os olhos do lugar em que vi o movimento. Peguei o facão, que carrego para destrinchar as galhadas, e quando a Cruzeiro colocou a cabeça para fora das folhas, prendi com a ponta do facão. Com cuidado, eu a peguei por trás da sua cabeça. Não sabia o que fazer com ela. Na dúvida a coloquei dentro de uma saca e amarrei para que não me fizesse nenhuma surpresa. Tomei o rumo de uma estrada de terra. Andei até bem longe do perímetro urbano e a deixei em um capão de mato. Ela também é um s...

A ciência da marreta

Eu me lembro do meu primeiro dia na obra. Coloquei o macacão da firma e me apresentei. Via em minha frente, um homem enorme, ele tinha uma raquete de 40 cm de palmo, a contar de dedo a dedo. “bom dia”, falei. “tem que derrubar essa coluna, porque aqui, só é preciso uma e têm duas; vou explicar como deve usar a marreta”, disse. “não precisa, é só bater até despedaçar”, respondi. “acha que a coluna é de tijolo maciço ou furado?”, perguntou. “acho que é maciço”, falei. Ele me olhou nos olhos e não disse mais nada. Comecei a bater com toda a força que tinha, contudo, por mais que eu colocasse ânimo na merda da marreta, não conseguia arrancar, nem mesmo um pedacinho dela; passei quase um turno inteiro numa pancadaria federal e nada. Perto do meio-dia, o homem da raquete, o cara que não usava uniforme, o mão-pesada, chegou pra ver o meu serviço. “e então, descobriu do que é feita essa coluna?”, falou. “não sei”, respondi, eu tive de admitir. “é de concreto e ainda t...

A torre mais linda do mundo

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Acordou e sentou-se na cama. Tomou um gole de água. A temperatura era fria por demais e voltou para debaixo dos cobertores. Abriu a gaveta do criado-mudo ao lado da cama e começou a anotar. Teve um sonho bonito e não queria perder a ideia. Sentia-se invadido por um sentimento extremamente terno. Em seu sonho, lembrava-se de um círculo amarelo e muito luminoso. Um círculo do qual emergia uma voz serena e encantadora. Foi quando uma escada rodeada de arbustos materializou-se diante de seus olhos. Laus ouvia um chamado e quando se deu conta subia os degraus. Rapidamente chegou a um patamar elevado diante de uma torre imensa. Tão alta que ultrapassava as nuvens. Feita inteiramente de enormes blocos de pedra, sua fundação ultrapassava qualquer medida que houvesse visto durante toda sua vida. Embora a ausência de porta, sentia que deveria entrar na torre. Ao menos era a sensação que decodificava através da sua intuição. Mas, como?, pensava. No mesmo instante, um elevador de aço reluzente e s...

Na margem do rio

Estava de folga. Já havia molhado a horta e revisado um tanto de páginas. Estava com boa parte do meu dia disponível. Deitei na rede e fiquei olhando para a estrada de terra e não via nada. Nem redemoinho passava — como se diz. O calor era grande. Então me mandei para a ponte. O rio é largo e fundo e não tem pedras ou galhadas embaixo da água. O lugar é bem limpo e bonito. Entrei devagar. Dei uma boa tateada para ter certeza de que não havia perigo. Então dei a primeira bicuda. Senti que a água estava morna. Não tinha correnteza e um punhado de pássaros cantava lá na copa das árvores em meio à mata. Lá pelas tantas, ouvi alguém gritando, lá do outro lado da margem: “tá nadando igual peixe”. Era o Tininho. Agradeci o elogio e respondi: “já que a gente não pode nadar junto, por conta da pandemia, eu fico com uma margem do rio e você com a outra”. Ele fez um sinal de positivo e disse: “quando tudo isso passar vamos voltar aqui e fazer um campeonato de bicudas”. Deixei um sorriso n...

Uma biografia para o Tody

Quando Tody não aguentava mais, saía pela rua sem qualquer plano. Pegava sua faca, atocaiava-se e, simplesmente, esperava pela sorte. Ele sentia dores de cabeça aguda e palpitações coronárias. E tudo que ele queria era alívio para sua cachola e seu peito. Um dia para que sua cabeça não doesse. Para que seu coração não palpitasse em disparada. E o único jeito de conseguir tal proeza era através de sua faca. Tody esfaqueava suas vítimas sempre na segunda costela porque sabia da eficiência do golpe que perfurava órgãos de importância vital. Ele era terrível e orgulhava-se de nunca ter perdido um golpe. Ele era a sensação da ala mais perigosa da Penitenciária de Culp. Uma gaiola de segurança máxima. Sempre rodeado de ouvintes, ele contava detalhes de sua carreira como matador. Tody era doido. E eu que trabalhava como carcereiro e que passava horas e horas de meu dia ouvindo forçosamente seus relatos resolvi anotar suas histórias. Até porque, o único modo de Tody conversar com seu...

A sorte

Queria ter sorte. É isso mesmo. Queria ter sorte mesmo que fosse por um único segundo. Era esse o pensamento que me consumia naquele instante. Tudo que procurei durante uma vida inteira foi a paz. E paz, sempre me soou como sorte, entende? Passei boa parte de minha vida calado, deitado, lendo ou escrevendo textos para colocar dentro de minha gaveta. A outra parte, a qual é quase todo o resto dela, passei fazendo hambúrgueres para o Tom. O Tom era dono da “Tom Lanches”, uma espelunca que ficava no subúrbio. Era eu quem abria a lancheria todo dia. Sempre que chegava, encontrava o Bóris, o cão que o Tom deixava amarrado na porta da lancheria para que a bandidagem não levasse embora tudo que havia lá dentro. E esse sempre foi um dos meus melhores instantes nessa vida, pois ele, o cão, me olhava com olhos tristes e amorosos ao mesmo tempo. Acho que ele pensava em algo que eu pensava também, só que eu não descobria o que era. E, enquanto eu fazia hambúrgueres, esse tipo de coisa rondava os ...

Um bom lugar

Era um vilarejo. Pelo que li na placa: “São Tatim”.  Contei as casas e tentei imaginar em que lugar poderia acampar. E com quem poderia falar a respeito. Eu já tinha estrada suficiente em minhas costas pra saber que devia falar com algum morador. Olhei em minha volta e encontrei uma porta aberta. Não havia outra opção. Entrei. E vi um balcão de bodega entupido de coisas, como um mercadinho improvisado, que servia de apoio a um homem muito magro e notoriamente alto. Dei um sorriso e puxei prosa. Seu Josias. Sujeito simples; vi em seu olhar o brilho de uma alma alvorada por uma vida de calmaria. Foi quando colhi a informação de que chegara à porta certa. Ali era onde se tirava passagem pra ônibus intermunicipal. Onde se podia alugar um quarto pra dormir. E ainda, onde se podia comer. Tomar um banho. Beber um trago. Enfim, tudo que fosse básico. Expliquei minha situação de viajante, interessado em acampar por uma noite e seguir no dia seguinte. Ele riu e me disse que não conhecia gen...