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A espera

Observei o alvo durante uma semana. Saber esperar é uma grande virtude. Eu fumava um palheiro e mantinha o rifle em posição para que pudesse acompanhar a situação de perto. A distância que tinha era de 682 m. Lá pelas tantas, o encomendado apareceu. O vento estava como devia. E avaliando a distância e todos os elementos possíveis, sabia que o momento era favorável. Respirei fundo e não me apressei. Notei que havia movimento nos fundos da casa. Não demorou e a caminhonete saiu lotada de gente. Por garantia, observei, com muita atenção, o semblante de cada um dos que estavam no veículo. O confiado estava sozinho. Fiquei ali, contando os instantes. E, quando o instinto me disse que era chegada a hora, firmei a mira bem no meio do pescoço. Na altura do gogó, como se diz. Foi um tiro certeiro. No compasso de meu coração. A cabeça de um lado, o corpo do outro, como sempre. Guardei o rifle na encilha e montei. Em pouco mais de duas horas estava sumido, feito um fiapo de fumaça.

O contato

O serviço começou com o enterro do contato. Quem entregou o dinheiro nunca voltou para casa. E o atirador deu um cuspe em cima da terra que usou para cobrir o corpo. Quem pagou não falou com ele. E quem foi fichado em sua caderneta não sonhou de noite. Uma bala. A cabeça de um lado. E o corpo do outro. Como sempre!

A carta

Quando o Dick foi trancado naquele quarto, conseguíamos ouvir seus gritos. Ninguém podia fazer nada por ele. O sequestrador carregava uma marreta em suas mãos. Não sabíamos ao certo o que acontecia. O fato é que estamos presos aqui há dias. Acho que é uma fábrica abandonada. Somos quatro pessoas e todos estamos baleados em uma de nossas pernas. Não temos noção de quanto tempo ficaremos vivos. Tento ajudar aos demais, mas não sei como. Já não tenho mais esperanças em voltar para casa e ver minha família. Então escrevo esta carta de despedida, talvez, a polícia ou alguém descubra o nosso paradeiro um dia e compreenda o que aconteceu com a gente.

800 metros

Olhava pela luneta. Controlava a respiração. Mantinha seu dedo posicionado. Sentia o vento que tocava seu rosto. Sem pressa. Os batimentos cardíacos bem compassados. Corpo relaxado. Mente concentrada. Os segundos transcorriam. O alvo entrou na mira. A bala viajou com perfeição. De um lado a cabeça. O corpo do outro. A decapitação era sua assinatura. Montou em sua mula. Acomodou o rifle. Bolou um palheiro para o caminho e sumiu em meio à mata. Bem do jeito que tinha de ser.