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Quem tem uma lona, tem tudo

Esta semana tive algumas experiências que me deixaram surpreso. Pois, me dei conta de que estava acelerando meu dia e não gostei de constatar tal fato. Quando a gente corre demais abdicamos da reflexão e nos tornamos massa de manobra. Então pensei, não posso me deixar levar, porque me recuso a entrar em tal órbita. Acho que a sociedade moderna tem transtorno de atenção e muita pressa. Só que eu decidi trabalhar com arte e estudar alquimia justamente para não precisar compactuar com este tipo de comportamento. Em meu modo de ver, a conduta moderna é, na maioria das vezes, uniforme. E sempre que a gente age, estamos influenciando a vida dos demais e nem todo mundo atua como quem entende que não está sozinho no mundo. Eu me pergunto: mas, afinal de contas, estão participando de tal jogo por quê? Deve ser por conta da tal aposentadoria, que chega na hora em que a gente vai morrer de velho, mas acaba nos matando de fome. Você já deve ter ouvido alguém dizer: quem corre muito não transa e nã...

Minha lona é minha casa

Vi o sinal de chuva no horizonte. Era um bom lugar para acampar e minha mochila estava lotada de mantimentos. Estiquei a lona. Fiz fogo. Enchi um caneco com água que colhi em um córrego intocado. Pendurei a rede e deitei. Havia um pássaro que cantava no alto de uma paineira. Senti como se minha presença fosse abençoada pela inteligência natural. Quando a água esquentou aproveitei para fazer um café. Bolei um cigarro de palha e fiquei olhando a chegada da chuva. Os pingos na lona pareciam música para meus ouvidos. Eu me sentia parte do ecossistema que me rodeava. A minha mente estava em paz. E o meu coração sossegado. Eu nunca tenho pressa. Afinal de contas, minha lona é minha casa. E o mundo é um lugar imenso e cheio de lugares especiais para que a gente possa repousar e renovar a alma.

À porta do céu

À véspera do entardecer de um dia qualquer, meu corpo vaga, minha mente vaga e meu espírito vaga, em uma infinita caminhada à procura de tudo e de nada Lembro-me de espantar-me com uma visão bucólica em tal dia ensolarado, ao tempo em que a relva doce e desconhecida e extraordinária me apanha e me arrebata de fora para dentro e de dentro para fora Sinto o cheiro da terra, que fora transformada em poeira, por conta de um vento indolente e que tornara-se redemoinho, em meio a estrada recoberta pelas folhas da mata que me rodeia Ao mirar adiante, percebo a leve e longa elevação do terreno, que me conduz a um ponto um tanto quanto mais alto e que culmina em um alvo infinito a imortalizar, em um único instante, um beijo doce e terno entre o céu e a terra e que desvenda-se diante de meu ser como se os dois fossem feitos um para o outro Alegro-me com tamanha benção e tomo a decisão de esticar a lona bem ao alcance do abraço de um grande Angico, que me proporciona um pouso seguro e ser...

Ao final do dia

Ateio fogo em uma vela, que ilumina a recente penumbra e vejo tons amarelados, resplandecentes e aureados de minha pobre e bela alma, os quais, surgem em meio ao silêncio de meus devaneios Anoto o que vejo e sinto como quem reza para o sem fim de seu próprio âmago, em meio à loucura da insana liberdade, ao modo de quem se recusa a tornar-se parte de um suplício sem fim, que transforma homens em cães adestrados a correrem atrás do próprio rabo em busca de um futuro conforto chamado sonho gentil e que depois de carcomer espíritos — ainda livres — os transforma em nada mais do que carcaças de ratos secos e mortos e esquecidos Insurgente, faço versos e preencho linhas de um caderno que carrego em meu bolso, muito bem acomodado sobre o peito e que soterra meu coração ao tempo em que dou vida à minha alma tão estranha ao escravagismo moderno deste mundo manipulado que não me alcança Sou infame Sou poeta Sou palavra e blasfêmia Sou o fim do calvário e o raio simples e puro de uma ...