Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Miniconto

A espera

Observei o alvo durante uma semana. Saber esperar é uma grande virtude. Eu fumava um palheiro e mantinha o rifle em posição para que pudesse acompanhar a situação de perto. A distância que tinha era de 682 m. Lá pelas tantas, o encomendado apareceu. O vento estava como devia. E avaliando a distância e todos os elementos possíveis, sabia que o momento era favorável. Respirei fundo e não me apressei. Notei que havia movimento nos fundos da casa. Não demorou e a caminhonete saiu lotada de gente. Por garantia, observei, com muita atenção, o semblante de cada um dos que estavam no veículo. O confiado estava sozinho. Fiquei ali, contando os instantes. E, quando o instinto me disse que era chegada a hora, firmei a mira bem no meio do pescoço. Na altura do gogó, como se diz. Foi um tiro certeiro. No compasso de meu coração. A cabeça de um lado, o corpo do outro, como sempre. Guardei o rifle na encilha e montei. Em pouco mais de duas horas estava sumido, feito um fiapo de fumaça.

O contato

O serviço começou com o enterro do contato. Quem entregou o dinheiro nunca voltou para casa. E o atirador deu um cuspe em cima da terra que usou para cobrir o corpo. Quem pagou não falou com ele. E quem foi fichado em sua caderneta não sonhou de noite. Uma bala. A cabeça de um lado. E o corpo do outro. Como sempre!

A carta

Quando o Dick foi trancado naquele quarto, conseguíamos ouvir seus gritos. Ninguém podia fazer nada por ele. O sequestrador carregava uma marreta em suas mãos. Não sabíamos ao certo o que acontecia. O fato é que estamos presos aqui há dias. Acho que é uma fábrica abandonada. Somos quatro pessoas e todos estamos baleados em uma de nossas pernas. Não temos noção de quanto tempo ficaremos vivos. Tento ajudar aos demais, mas não sei como. Já não tenho mais esperanças em voltar para casa e ver minha família. Então escrevo esta carta de despedida, talvez, a polícia ou alguém descubra o nosso paradeiro um dia e compreenda o que aconteceu com a gente.

Pedido de Socorro 01

O paradigma do mundo é escrever como alguém inofensivo ao sistema. E desde que fomos invadidos pelos habitantes do planeta 08, a nossa situação é complicada e temerária. Nós, os escribas, estamos sob constante censura. É preciso ter muito cuidado no momento de redigir um livro ou qualquer tipo de notícia que seja. O Jornal Interestelar fora fechado. A Biblioteca Espacial fora queimada. Estamos sob forte coerção e esperamos que alguém receba esta mensagem e encaminhe socorro. Desde já, agradecemos a todos pelos esforços.

Um celular do capeta

Eu realmente fico impressionado com quem consegue escrever em um teclado de celular. As teclas são tão pequenas que nem consigo colocar os meus dedos aonde quero. O revisor ortográfico está sempre um passo em frente. E o aparelho instala programas o tempo todo. Ele treme. Ele apita. É como se a máquina estivesse interessada em pensar por mim.

Vida de ermitão

Sentou-se na rocha. O sol banhava seu corpo. Havia um silêncio imenso. Podia-se ouvir o riacho que corria. A brisa era fria, tal qual o dia, e mesmo mansa, mostrava o quanto a temperatura vinha caindo nos últimos dias. A natureza seguia seu curso com equilíbrio. Nada de ruim habitava sua mente. Sentia-se envolto por um cosmos luminoso. Uma benção natural. Algo que nutria seu espírito, seu corpo. Ao longo do tempo a leitura e o isolamento ganharam espaço em seu dia e vicejaram de hábito para filosofia de vida. A caminhada que escolheu o trouxe para um universo paralelo em relação ao mundo no qual passou boa parte de sua vida. Não precisava preocupar-se com horários e baseava-se nos astros e na natureza para contar o tempo. Não frequentava supermercados e dedicava-se a colher frutos e cuidar de sua estufa. A vida que abraçou tinha caráter autossuficiente e pacífico. Há um bom tempo que não pisava o asfalto e reaproximou-se da terra. Nem lembrava mais de como soavam as buzinas em meio a...

Um dia cinzento

Choveu durante toda noite. Ao longe, alguns pássaros cantam (a mata fica diferente em dias assim). O eremita sabe que, em breve, haverá migração em busca de terras mais quentes e um período solar diário um tanto mais longo. E assim como os pássaros e as formigas e toda vida da floresta, ele também está preparando-se para todas estas mudanças que estão a caminho por conta da nova estação e dedica seu dia a fazer compotas de frutas, vegetais, peixes e uma série de alimentos. Durante os próximos meses terá de manter-se enclausurado na rocha a maior parte do tempo. Precisa ter certeza de que haverá alimento suficiente para tal período. O volume de lenha seca bem ao alcance de sua mão deve bastar para toda temporada. A natureza é um ecossistema complexo e perfeito. Enquanto mãe, ela provê a todos que aprenderam a seguir seu curso e podem aproveitar tudo de bom e de melhor que só ela pode repartir.

800 metros

Olhava pela luneta. Controlava a respiração. Mantinha seu dedo posicionado. Sentia o vento que tocava seu rosto. Sem pressa. Os batimentos cardíacos bem compassados. Corpo relaxado. Mente concentrada. Os segundos transcorriam. O alvo entrou na mira. A bala viajou com perfeição. De um lado a cabeça. O corpo do outro. A decapitação era sua assinatura. Montou em sua mula. Acomodou o rifle. Bolou um palheiro para o caminho e sumiu em meio à mata. Bem do jeito que tinha de ser.

A música e a paz são um momento de celebração

Ao som de Pachelbel, todo ambiente se harmonizava. No fogão, movido de boa lenha, cozinhava uma porção de feijão enriquecido com cenoura e batata. A luz parida de velas, feitas com cera de abelha, dava um equilíbrio extraordinário ao momento introspectivo e cheio de revelações vindouras de sua última leitura respectiva ao fraterno legado da paz. Uma ocasião para curar toda e qualquer dor em meio a um sagrado instante de celebração.

Sobre ler e pensar

Anotou em seu diário hermético, depois de ler o Livro da Sabedoria e da Luz: “Os Sete Princípios são o próprio universo em andamento”. Sentou ao pé do fogo e colocou mais uma racha de lenha para queimar. Ele sabia que nada permanece estagnado e que tudo vibra.

Palavras de liberdade

A Alquimia, os estudos, o amor ao conhecimento e sua admiração pela natureza o levaram a romper com o mundo moderno. O tempo trouxe sabedoria. A luz instaurou-se conforme o caos fora dissolvido. E a prática durante o processo tornou-se libertação.

Um dia de chuva e frio

Embrenhado na mais pura rocha, o eremita aproveitava o sabor do café e desfrutava de suas escolhas e renúncias. Havia um bom fogo em sua lareira. Algumas peles e cobertores criavam um aposento aconchegante. Muitos livros e várias vidrarias preenchiam o lugar. A energia era tão boa, que só havia espaço para sentir gratidão.

Uma jaula com arapuca

Quando a gente exclui a opção de comentar e oferece um Box de e-mail, colocamos o nosso odioso dentro de uma jaula com arapuca. Porque para comentar, é preciso entregar um dado pessoal importante. Além de tudo, sem uma vitrine em que possa se exibir, o seu ataque não surte o efeito desejado e o prazer não vem. É uma tática tão inteligente, que mata o algoz do jeito certo: fazendo com que passe muita raiva e envenene-se com o próprio ódio.

O pico era alto e a neblina constante

Dia 1 — Vista este poncho, está muito frio e a caminhada é longa. — Eu não sinto frio, Mestre. O mestre permaneceu em silêncio. O pico era alto e a neblina constante. Dia 2 — Mestre, está muito mais frio aqui em cima, acho que vou congelar. O mestre permaneceu em silêncio. O pico era alto e a neblina constante. Dia 3 Os abutres tinham o que comer. O mestre permaneceu em silêncio. O pico era alto e a neblina constante.

Eu gosto de cigarro com filtro vermelho

Quando um trombadinha exigiu a grana, com um canivete na mão, eu passei 20 reais. Disse que era tudo que eu tinha e o chamei de senhor. Lá de onde venho, todo mundo tem direito a comer. E quando a mulher passou e pediu: eu cedi um cigarro. Mas, quando um marmanjo se agigantou, eu roubei a carteira de Marlboro que ele tinha no bolso.