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Mostrando postagens com o rótulo Poema

Estou em paz

Ando em dois mundos e agora estou distante da mata mais verde que já vi O vento castiga minha face e afaga um varal colorido que tremula Sinto que minha alma revive O cheiro do monóxido de carbono carimba meu pulmão E um pássaro canta no alto de uma árvore Contudo, sem asas, porém, também divino, um mano desconhecido corre o olho pelo trampo Sei que a calçada me abriga desde muito jovem Seja palavra Seja tinta Seja madeira Seja ferro, fogo ou brasa O que mais importa é ser Ser como se nasceu Honesto consigo e o mundo em nossa volta E ao tempo em que me sirvo da situação e anoto, estou em paz comigo mesmo Estou livre Estou participando da mudança Estou em casa Estou na rua Estou esparramando um tanto do que brota em meu coração E olhando o varal e coringando o pano, sei que ando em dois mundos Com os mesmos pés O mesmo espírito A mesma alma E a mesma satisfação de ser

Livre feito palavra

Quero sentir o vento em meu rosto Ouvir os pássaros Sentar embaixo de uma árvore e trocar ideias   Sou filho da contramão E me criei na calçada   A vida é um pingo de paz Um raio de sol E um punhado de linhas anotadas   Sou livre feito palavra E da vida Não quero mais nada

Um poema em tempo real

O sol me aquece como fogo As plantas crescem E o tempo se renova constantemente   Sorriso e espinho Grama e flor Amor e dor E uma propaganda de iogurte que baila no vento enquanto vejo e anoto A cidade faz barulho E meu ouvido também acorda   Um carro acelera A garagem abre E outro carro chega   Um instante de silêncio feito de agitação Cabeça e espírito Entre o sim e o não A minha mente procura a palavra em alta aceleração   A vida é um segundo que corre Uma fração Os ruídos me cercam E as imagens tomam minha visão

À porta do céu

À véspera do entardecer de um dia qualquer, meu corpo vaga, minha mente vaga e meu espírito vaga, em uma infinita caminhada à procura de tudo e de nada Lembro-me de espantar-me com uma visão bucólica em tal dia ensolarado, ao tempo em que a relva doce e desconhecida e extraordinária me apanha e me arrebata de fora para dentro e de dentro para fora Sinto o cheiro da terra, que fora transformada em poeira, por conta de um vento indolente e que tornara-se redemoinho, em meio a estrada recoberta pelas folhas da mata que me rodeia Ao mirar adiante, percebo a leve e longa elevação do terreno, que me conduz a um ponto um tanto quanto mais alto e que culmina em um alvo infinito a imortalizar, em um único instante, um beijo doce e terno entre o céu e a terra e que desvenda-se diante de meu ser como se os dois fossem feitos um para o outro Alegro-me com tamanha benção e tomo a decisão de esticar a lona bem ao alcance do abraço de um grande Angico, que me proporciona um pouso seguro e ser...

Ao final do dia

Ateio fogo em uma vela, que ilumina a recente penumbra e vejo tons amarelados, resplandecentes e aureados de minha pobre e bela alma, os quais, surgem em meio ao silêncio de meus devaneios Anoto o que vejo e sinto como quem reza para o sem fim de seu próprio âmago, em meio à loucura da insana liberdade, ao modo de quem se recusa a tornar-se parte de um suplício sem fim, que transforma homens em cães adestrados a correrem atrás do próprio rabo em busca de um futuro conforto chamado sonho gentil e que depois de carcomer espíritos — ainda livres — os transforma em nada mais do que carcaças de ratos secos e mortos e esquecidos Insurgente, faço versos e preencho linhas de um caderno que carrego em meu bolso, muito bem acomodado sobre o peito e que soterra meu coração ao tempo em que dou vida à minha alma tão estranha ao escravagismo moderno deste mundo manipulado que não me alcança Sou infame Sou poeta Sou palavra e blasfêmia Sou o fim do calvário e o raio simples e puro de uma ...

Larguei mão de tudo que atravanca o caminho

De algum jeito, alguma coisa está diferente. Sinto que vejo mais longe, mais fundo. E que meus calos me libertam. Tenho cheiro de terra em minhas mãos e, também, das fragrâncias de jardim. Abençoado, lavo minha alma em meio à natureza todo dia. Penso que voltei ao berço de meu âmago para resgatar minha sabedoria de menino. Sinto que tenho algo bom que me apanha por dentro. E não estou disposto, a perder nem mesmo um tantico das coisas boas que vingaram em minha vida, assim, por descuido, debaixo, de um sol, tão quente.

Com todo respeito

Eu ainda acredito no amor Mesmo que no mundo Ainda exista muita dor Sou chapado de poesia E viciado em rima Sou doutor da alma E vivo como se fosse flor Ando de dia e de noite Sempre na mesma trilha Não corto caminho Nem engasgo no verso Agora é minha vez de rasgar o verbo Conheço muitas histórias reais Que rolam em telejornais Sei que tem fome no mundo E muita promessa sem paz Já vi muito defunto Que achava que não podia virar presunto Sendo alocado em sete palmos Embaixo do mundo O mundo é imundo Mundo Mundo Mundo louco de roleta-russa Um tiro de fuzil E muito sangue na blusa Meu Deus Meu Deus Me acuda E quem puder Que chame seu Buda Vejo gente negligenciada o tempo todo Enquanto os caras que comandam o Estado Andam de avião e terno fino o dia todo Se fazem de loucos E a população se vira Para engolir tudo que é tipo de osso É pouco É osso É pouco É osso Dizem que a população tem que comer é bala de fuz...

Na caminhada

Aprendi a amar o silêncio e sossegar meu coração, pois não tenho mais a pretensão de salvar ninguém de si mesmo. O tempo passa, a vida ensina e o caminho se revela e revela. Ao semelhante, entrego-lhe o conforto da própria liberdade e toda dignidade para servir-se de ignorância ou conhecimento, conforme sua sede e sua fome. Porém, o bom tom obriga-me a tornar-me igualmente livre e preservar-me conforme aprendo e caminho.

Eu já vi geada com mais de 3 dedos de altura

Eu faço um fogo grande e rodeado de pedra bem no meio de um campo sem fim Eu venho de um fundão de mundo que pouco guasca conhece e muito taura se obriga a refugar Eu passei uma vida inteira dormindo embaixo do sereno e com a sola do pé encostada na brasa de puro nó de pinho Eu já vi geada com mais de 3 dedos de altura Eu tenho a unha grande e a sola do pé preparada pra pedra e espinho Eu tenho um cachorro companheiro e um cavalo que troteia ligeiro e pisa fino Eu sou filho de meu pampa e me agarro à unha na crina do meu pingo Eu ganho a vida andando de comitiva e morando embaixo de um poncho que veio lá do Uruguai

Lá na curva do rio

Disseram que a onça do ouro subiu Mas eu não sabia E disseram também Que o preço baixo das ações Fazem parte de um composite financeiro interessante para este semestre Com baixo risco de investimento futuro para quem tem assessoria na hora de investir E eu também não sabia Eu fiquei quieto Mas o homem queria que eu falasse Então eu me senti na obrigação de dizer alguma coisa E cheio de vergonha contei que a vida nas 4 bocas é bem mais vagarosa Disse que choveu o dia todo E que peguei uma dúzia de Jundiás com mais de um quilo cada um Lá na curva do rio

Um surf na corrente

Eu quero ver o horizonte lá do alto E sentir o vento em minha face E quando eu estiver mais velho E mais parecido com a águia Vou subir a montanha E viver aonde ninguém vai

Lembranças

Meu neto O frio engasgava as balas E havia gelo e neve por todos os lados As máquinas que eles operavam Eram imensas Eles tinham preparo de combate E a gente tinha a gana e a razão A gente mijava em cima das metralhadoras E não tinha escolha Eles tinham tanques em fila E marchavam em nossa direção Mas quando eles chegavam nas valas A gente detonava a esteira deles E mandava uma granada para dentro do tanque Eu estive lá e posso dizer O sentimento de liberdade e igualdade Ninguém pode vencer E a gente os pegou Um a um

Você pode reinventar o mundo

É preciso perder o medo E viver por um segundo apenas Não há como amar sem sofrer em um mundo louco E ninguém interessado em repartir viverá sem curar um arranhão profundo Você pode conseguir alguma coisa em troca de uma nota de cem E você pode quebrar a bolsa apenas cruzando os seus braços A vida é uma aposta que está na janela Você pode reinventar o mundo Não deixe que o poder quebre a sua vontade e o seu coração Não deixe que os vilões fiquem com sua alma e nunca se entregue sem lutar Já é tempo de saber: Cada vez que você acorda Mais alguém ganha uma nova chance Eu e você vivemos no outro E somos um só Eu sei que o dia parece escuro Mas ainda temos muito tempo pela frente E se eu pudesse pedir algo a você Eu o encorajaria até o fim E nunca o abandonaria

A estrada é o meu lar

Eu tenho uma lona Um espírito E um dia inteiro para escolher onde pousar

Cantar é um jeito de ser livre

A minha mãe cantava no coral da igreja E me levou para lá Os ensaios de sábado Eram disputados E foram muitos dias De louvores ao senhor E cantar É um jeito de ser livre Você me entende? A minha mãe sempre bebia Uma taça de vermute Quando chegava do culto E me dizia sempre: Você deve servir a Deus Meu filho Mas como um bom homem Não faça pouco caso do diabo

O mistério me chama

Fico atento Anoto Aprendo e penso Faço um chimarrão bem cevado E me planto diante do experimento A chuva cai mansa Vez ou outra um pássaro canta Ponho mais um palheiro em minha conta A fumaça purifica o ar e o espírito Ateio um punhado de folhas sobre o braseiro E os odores esparramam-se diante da paz O labor me envolve E me encanta O tempo não para E o universo vibra

Diante do Cemitério

Em um dia nublado E de profunda tristeza Envolto pela chuva fina E um sobretudo preto Peguei-me diante do cemitério Em meu âmago Uma sensação diferente Chamava-me Fiquei em dúvida por alguns instantes Até que dei o primeiro passo Na direção do portão E tão logo adentrei em meio às lápides Senti uma presença mais triste do que a minha E diante da grande cruz Um espírito sem cabeça Estendeu seus braços em minha direção E embora decaptado Eu podia ouvir a voz que emanava daquele corpo: Onde está a minha cabeça? Eu preciso dela para descansar A voz insana petrificou minha alma E ainda atordoado com o fato Eu não sabia o que responder ou mesmo fazer Foi quando algo em meu âmago Levou-me a ajoelhar-me diante da atormentada alma E inspirou-me a dizer: Preserve o seu coração Alma amiga Pois a cabeça Nem sempre é o mais importante E neste instante Uma luz amarela Envolveu a alma perdida E a levou para o alto do céu Fiquei embas...

Embaixo do céu

passei muitos dias em terras secas olhando o horizonte beijar a areia quente eu fiz um lar no meio do nada e um amigo embaixo do céu a fogueira aqueceu minhas noites e a natureza ao meu redor me fez parte dela eu vivo como vive um arbusto e gosto de uivar olhando a lua eu já fui um cervo e hoje em dia eu vivo na pele de um lobo eu já morri tantas vezes que nem ao menos sou capaz de contar acho que meu coração bate e minha alma me perturba o tempo é infinito e vagamos pelo universo eu acredito que a terra nos engole e que o céu nos recebe

E não é?

esgotamento não é progresso felicidade não é consumismo liberdade não é uma dívida impagável e aposentadoria não é um plano para o sobrenatural

Imunização

a mente, o coração  e o espírito. a terra,  o ar  e o sol. a chuva,  as árvores  e o silêncio. o bater de asas do pássaro, o som do rio que corre e a cantiga das cigarras. a vida, o tempo  e o instante. os segundos, os minutos  e os dias.  o caminho,  a caminhada  e a imunização.