O cara atrás do balcão embrulhou o pastel para levar, como se diz por aqui. Saí em um passo muito mais do que compassado. Sentia que ouvia meu coração bater sempre que tocava o pé na calçada. Minha mochila estava pesada, recheada de arte. Enquanto caminhava, o sol quente e o vento morno trombavam com minha face. Pensei, vai ser um dia legal. O céu estava azul de anil e minha intuição era positiva. Sentei no banco e deixei a mochila de lado. Abri o embrulho. A primeira mordida foi bacana. Gostei, pensei. Bebi um gole de café e me senti lisonjeado. Afinal de contas, em meio a tanta fome, o divino me abençoava. Obrigado, pensei. Logo que acabei de saciar o estômago saquei a tralha para cima do banco. Desenrolei a cordinha. Catei os prendedores. Escolhi as artes e em poucos minutos o varal estava estendido. Sentei no banco e empunhei um palheiro (cigarro feito manualmente com fumo picado, esse que vendem em mercadinhos de bairro). A primeira baforada misturou com o gosto do café preto. Fiq...
Um dia me dei conta de que minha maior luta era não deixar que me arrastassem para um caos que não me pertencia. Em minha visão, o grau de manipulação cresceu substancialmente nos últimos anos. Por isso procuro reservar um tempo para contemplar como alternativa para me desintoxicar e também tento manter uma jornada de trabalho regular. Na maior parte do tempo em que me percebo inserido em muitos ambientes me sinto literalmente “boiando”, como se dizia antigamente. Tento concatenar uma coisa com outra e não consigo estabelecer relação alguma entre boa parte de meu entorno e meu íntimo. Então eu penso, deve ser mais uma luta ilusória. Cuidar da própria vida também é cuidar do nosso redor. Sempre que vou até a praça mostrar meu trabalho ou sento para escrever tenho a sensação de que estou consciente. Acho que a consciência é algo que liberta. Creio que nossas aspirações são um ponto muito importante em nossa vida. Entendo todo mecanismo que existe em minha volta. Contudo, ao mesmo t...
Desde que comecei a trabalhar com arte, fiz todo esforço possível para colocar meu trabalho nas mãos das pessoas através da rua, seja na literatura ou nas artes visuais. Pois, sempre tive a visão de que a arte e o artista precisam estar o mais perto possível do povo. É uma opinião profissional. No início, estava por mim mesmo. Depois, com o passar dos anos, trabalhei em muitos lugares e com muitas pessoas. Sempre dei meu sangue pelo todo. Porém, de tanto somar em grupo, chegou um momento, em que optei por retornar ao início de tudo e fazer meu trabalho de maneira solo. Quero aproveitar o tempo que me resta com liberdade. Acho que todos temos necessidades e compromissos. E precisamos equilibrar uma coisa com a outra. Não é fácil. Se a gente não lembrar da gente, como vamos contribuir com o coletivo? Trabalhar no mercado independente é uma escolha para que eu possa escolher. Como sempre digo: não penso em guerra, penso em servir, em ser útil. O artista está para o povo, o produtor ...