Aquarela em dobro
Esperei
até secar. Gostei da primeira camada. Vou colocar mais uma, pensei. Botei o
estojo em que guardo meus lápis sobre a mesa. Catei um potinho e adicionei um
pouco de água. Mais ou menos a metade. Escolhi a paleta de cores. Respirei. Olhei.
Comecei devagar. Fui combinando as cores e finalizei com água e pincel.
Recolhi
a bagunça. Tomei banho. Bebi um café e fumei um palheiro. Catei as artes e
chapei o muro aqui de casa com elas. Costumo dizer que o Muro do Mammalia é o mais
colorido da cidade. Só que deixei o espaço da esquina para a peça que tinha terminado.
Era um dia em que o sol aparecia e sumia. Estava bom. Calor e nublado em boa
parte do tempo. Vou esticar o dia, pensei.
A temperatura
passava dos 30º e pelo que via sabia que a chuva pintava no horizonte e dividia
a imagem em dois tons. Vou me pregar aqui no muro mesmo, pensei. Essa é uma
manha que eu tiro para dias assim. Dava para sentir que a chuva seria grande
por causa da força com que o vento soprava.
Dei
mais um tempo e fui conferir. Mirei de perto e notei que estava seca. Escorei a
moldura no muro. Me afastei. Olhei e curti. Me plantei e fiquei observando o
trânsito. Dava para ver as reações. Notei uma energia massa. Que bala, pensei. Estava
contente. Me sentindo leve. Tudo por conta dessas paradas legais que a arte pinta na vida da gente.