Quando a porta está aberta
A primavera
é foda. Sempre curti as praças. As ruas. E quando chega a primavera fico
contente em dobro. Sinto como se tudo em minha volta me abraçasse. É importante
que a gente permaneça consciente para que possamos receber as gratificações do
universo com sabedoria. Acho que as estações do ano são muito mais do que
passagens. São portais. Como se fossem os capítulos de um livro. E cada uma
delas oferece uma oportunidade de entender a vida e a complexidade que existe e
abriga a humanidade. Em minha ótica, nossa vida se transforma conforme tais
mudanças.
Quando
abro a porta aqui da garagem, sinto como se estivesse vivo. Coloco as artes e
os livros do sebo em exposição. Faço um chimarrão bem cevado, como se diz por
aqui e me entendo como um ser ligado na missão. É louco o que acontece. As pessoas
param e sentam. Tomam uma cuia. Conversam sobre suas vidas. Perguntam sobre o
trampo. É um momento social. Um instante de integração.
[Muita
gente diz assim, você não tem medo de assalto? Então eu respondo, de que tipo
de assalto você está falando? Contudo, é importante explicar que a pergunta sobre
o medo de assalto nunca é proferida pelas pessoas que param para trocar ideias.
Normalmente, é pronunciada por gente que está longe das gentes e que indaga inserido
dentro de um contexto de bolha, distante das realidades, das convivências, do
meu cotidiano e da minha porta.]
Atualmente,
com a parada de abrir a porta, nem da chuva e do frio eu preciso me esconder. Porém,
é bom lembrar de que o varal é uma revolução porque protege as peças envelopadas
na embalagem plástica como se fosse uma blindagem, pode chover, ventar, enfim,
para quem mora no Sul do Brasil é uma solução revolucionária por conta do clima
e ainda se molda em qualquer espaço e de acordo com a situação. Penduro na
árvore, na grade do muro e até no céu se bobear, rs.
O que
posso dizer é que depois que você abre a porta, estende o varal, estica um pano
e eleva os livros nas mesinhas, dá para arrombar o mundo e as mentes. Pois, existe
proximidade. Simplicidade e equidade. É louco como aparecem gentes para jogar
bola com a arte e a convivência assume um estado de plenitude. O meu coração
bate com muito mais satisfação só porque estou escrevendo sobre tal ideia. Esse é um barato louco e que todo mundo transa, como se dizia na minha época de guri,
porque só dá onda boa.
Ainda desenrolando o papo, chega um momento em que eu lanço o link do blog. E quando a pessoa acessa e começa a ler, todo mundo me diz, é esse tipo de trabalho que um artista deve fazer. E nesses instantes até os cabelos da minha nuca arrepiam. Aí eu lembro do Fausto Wolff e daquela obra fantástica, “O acrobata pede desculpas e cai” e penso, estou fazendo a coisa certa com a porta aberta, o coração escancarado e a alma livre. E o melhor de tudo: é que não tem um logotipo estampado em lugar nenhum.