Ando em dois mundos e agora estou distante da mata mais verde que já vi O vento castiga minha face e afaga um varal colorido que tremula Sinto que minha alma revive O cheiro do monóxido de carbono carimba meu pulmão E um pássaro canta no alto de uma árvore Contudo, sem asas, porém, também divino, um mano desconhecido corre o olho pelo trampo Sei que a calçada me abriga desde muito jovem Seja palavra Seja tinta Seja madeira Seja ferro, fogo ou brasa O que mais importa é ser Ser como se nasceu Honesto consigo e o mundo em nossa volta E ao tempo em que me sirvo da situação e anoto, estou em paz comigo mesmo Estou livre Estou participando da mudança Estou em casa Estou na rua Estou esparramando um tanto do que brota em meu coração E olhando o varal e coringando o pano, sei que ando em dois mundos Com os mesmos pés O mesmo espírito A mesma alma E a mesma satisfação de ser
Persigo um passo de cada vez. Mantenho meu pensamento desapegado das ilusões que um dia ouvi. Faço dos meus dias uma promessa de resistência. Não invento força para negar o que percebo e sigo como quem deixa que tudo vá e se manifeste. Aprendi que não existe quem não tenha provado um pouco de abandono, de tristeza e dor, ao tempo em que sobrevive. Estou seguindo uma convicção que me diz o seguinte: desapegue e não pragueje, apenas caminhe. É uma atitude libertadora e poderosa, aceitar o que tenho de acolher e fazer o que preciso bancar. Sinto como se lambesse minhas feridas sem chorar. Tenho a impressão de que muita coisa que apanhou-me desprevenido tinha alicerce em uma visão fiel e extremamente unilateral. Um erro meu, pois, no fundo, já sabia que havia um padrão. Sim, eu me enganei. E me iludi porque escolhi. Contudo, observar os monges, permitiu que eu pudesse renascer, ainda bem.
O serviço começou com o enterro do contato. Quem entregou o dinheiro nunca voltou para casa. E o atirador deu um cuspe em cima da terra que usou para cobrir o corpo. Quem pagou não falou com ele. E quem foi fichado em sua caderneta não sonhou de noite. Uma bala. A cabeça de um lado. E o corpo do outro. Como sempre!