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A sorte

Queria ter sorte. É isso mesmo. Queria ter sorte mesmo que fosse por um único segundo. Era esse o pensamento que me consumia naquele instante. Tudo que procurei durante uma vida inteira foi a paz. E paz, sempre me soou como sorte, entende? Passei boa parte de minha vida calado, deitado, lendo ou escrevendo textos para colocar dentro de minha gaveta. A outra parte, a qual é quase todo o resto dela, passei fazendo hambúrgueres para o Tom. O Tom era dono da “Tom Lanches”, uma espelunca que ficava no subúrbio. Era eu quem abria a lancheria todo dia. Sempre que chegava, encontrava o Bóris, o cão que o Tom deixava amarrado na porta da lancheria para que a bandidagem não levasse embora tudo que havia lá dentro. E esse sempre foi um dos meus melhores instantes nessa vida, pois ele, o cão, me olhava com olhos tristes e amorosos ao mesmo tempo. Acho que ele pensava em algo que eu pensava também, só que eu não descobria o que era. E, enquanto eu fazia hambúrgueres, esse tipo de coisa rondava os ...

O ambiente e a narcotização social

Estou sujeito ao ambiente. Você está sujeito ao ambiente. Vivemos em aglomerações que chamamos de cidades e que nem sempre estão preparadas para uma aglomeração de pessoas. Enquanto gente, temos necessidades, as mais variadas possíveis. Necessitamos de boa logística para a movimentação. É preciso chegar ao trampo, à escola. A habitação também é uma necessidade de ordem importante para quem vive em meio à multidão, e cada um de nós, precisa de um lugar para descansar o seu corpo. Necessitamos de hospitais, e principalmente, de médicos e tratamento. Enfim, enquanto leio o ambiente urbano no qual estamos locados, tento entender como funciona toda essa engrenagem esmagadora. A estrutura que um governo opressor oferece é sempre falha. Tudo que vem do poder enfraquece o seu povo. Isso começa como um câncer em meio a todo tipo de estrutura que seja uma necessidade básica para uma comunidade sadia. Afinal de contas, como chegar a uma escola que não existe, que fora fechada, a uma fábrica q...

O sol sempre volta

quando a tristeza consumir o seu coração feche os olhos e pense na chuva imagine um punhado de terra em suas mãos tente sentir em seu tato aquele disco fodido o ponto na hora certa e um tanto de sorte em um único instante pense que o mundo é louco e tanto já se disse sobre isso que nunca conseguimos aproveitar nada do que ouvimos o dia é um momento que não voltará uma cicatriz jamais terá uma superfície lisa e mesmo assim o sol sempre volta!

O ferreiro e o sabre

é possível moldar a nossa alma e o nosso corpo. a nossa mente e o nosso espírito. enquanto seguimos o nosso caminho em busca de uma malha cheia de resiliência. a qual, tenha toda força de que precisamos para que os nossos dias sejam bons. e usando uma bandeja, cheia de carvão em brasa, se pode soprar e sugar, aumentando e diminuindo as chamas de um modo que convém. aquecendo e esfriando, na brasa e na água. na bigorna e na marreta, indo e vindo do quente e do frio. a deixar-nos com a mente mais larga e com o nosso corpo equilibrado, tal qual a relação entre o cabo e a lâmina do sabre por dentro e por fora. e conforme a alteração das moléculas, faz-se testes com uma lima para saber se a lâmina fora bem temperada e se a lomba da espada tem a flexibilidade de que se precisa para que o aço seja muito forte, mas nunca quebre. e num momento de exaustão, pergunto-me: se o mundo fos...

Mel e chumbo

quero vida e esperança. indolência e irreverência. desejo ar e céu. noites com estrelas e dias de sol. eu quero quebrar a barreira do tempo e viver para sempre. eu sei, muitos são os que dizem que a vida eterna é impossível. mas eu sou um cara teimoso e sem limites. quero interromper as engrenagens que trazem dor. e vou destruir os apitos das fábricas e pichar os nossos muros com citações subversivas. eu serei ousado e farei um poema para você. eu quero que quebre o gelo e sorria. que soque a desgraça com toda sua força. eu quero que a loucura nos salve e que a porra do mundo seja um só. quero que voe e que experimente o cheiro que há nas nuvens. eu quero que veja o mundo lá do alto. eu espero que seja forte e quebre qualquer campo de força que o paralise. eu preciso que experimente um tanto de perigo e que destrua suas certezas. eu quero que possa...

Um bom lugar

Era um vilarejo. Pelo que li na placa: “São Tatim”.  Contei as casas e tentei imaginar em que lugar poderia acampar. E com quem poderia falar a respeito. Eu já tinha estrada suficiente em minhas costas pra saber que devia falar com algum morador. Olhei em minha volta e encontrei uma porta aberta. Não havia outra opção. Entrei. E vi um balcão de bodega entupido de coisas, como um mercadinho improvisado, que servia de apoio a um homem muito magro e notoriamente alto. Dei um sorriso e puxei prosa. Seu Josias. Sujeito simples; vi em seu olhar o brilho de uma alma alvorada por uma vida de calmaria. Foi quando colhi a informação de que chegara à porta certa. Ali era onde se tirava passagem pra ônibus intermunicipal. Onde se podia alugar um quarto pra dormir. E ainda, onde se podia comer. Tomar um banho. Beber um trago. Enfim, tudo que fosse básico. Expliquei minha situação de viajante, interessado em acampar por uma noite e seguir no dia seguinte. Ele riu e me disse que não conhecia gen...

A vida na lona

O sol era tão quente que eu me sentia dentro de uma panela de pressão e tinha a exata sensação de que o calor cozinhava os meus miolos e o meu corpo por inteiro. Os meus lábios recebiam pequenas doses de sal, todas arrastadas pelo suor que descia da minha testa e isso aumentava consideravelmente a minha sede. A estrada cobrava o seu preço e a cada passo que dava, sentia como se os músculos das minhas pernas se contraíssem iguais a hienas lutando umas contra as outras. E embora ainda houvesse 3 km de caminhada eu já avistava o meu destino ao longe por conta da elevação do terreno. Foi quando decidi sentar embaixo de uma laranjeira nativa que ficava ao pé da nascente para descansar um pouco e pensar. E tão logo bebi o primeiro gole de água o meu cérebro passou a recuperar as minhas sinapses. Era um lugar isolado e cheio de vida em que os pássaros cantavam e um grande número de plantas se esparramava por um longo perímetro. Eu tinha de pensar se valeria a pena o desgaste de continuar a c...